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CROM, Fogo Vivo

Dragão vermelho

Antes de ser uma lenda, antes mesmo de ganhar nome, *CROM* era apenas um ovo solitário abandonado na cratera extinta do vulcão *Thyr Vahldar*. Os outros da sua ninhada morreram — por frio, fome ou predadores. Mas o seu ovo, envolto por uma casca de quartzo vermelho, ardia com uma chama interior que nunca cessava. Alguns diziam que ele fora incubado pela própria essência do fogo primordial uma fagulha roubada dos deuses antigos pelos Dragões de Sangue.


Ele nasceu em meio às cinzas. Cego, faminto e pequeno, rastejou para fora do ovo, chorando uma chama que queimou os ossos do primeiro predador que tentou devorá-lo. Era diferente. Mais quente. Mais faminto. E mais solitário.



Os jovens dragões costumavam ser nutridos por suas mães. CROM não teve essa bênção. Durante cem dias, alimentou-se de rochas, cinzas e, ocasionalmente, de feras incautas que se aproximavam de seu covil. Ele cresceu devagar, mas cada dia vivo era uma vitória contra a morte.


Durante esses dias, ele aprendeu que não havia salvação, apenas superação. E foi no centésimo primeiro dia, quando derrotou um basilisco com uma chama tão quente que derreteu a carne sem tocar, que a primeira alcunha lhe foi sussurrada por uma criatura moribunda: 


 “Você... é o fogo em carne... o Fogo... Vivo...”



Era o tempo dos jovens se provarem.

CROM, ainda com cem anos — pouco mais que uma criança para os padrões dracônicos —, foi convocado ao *Julgamento de Cinza, uma tradição do clã de Thyr Vahldar, onde os jovens deveriam atravessar os **Campos do Silêncio*, um deserto enfeitiçado onde o som não existia e a magia era instável.


Lá, deviam enfrentar o próprio reflexo — um espelho de suas dúvidas e medos, trazido à carne por antigas runas.


CROM caminhou por sete dias. Sem rugido. Sem chama. Quando seu reflexo surgiu, era ele mesmo, mas *morto*, enterrado sob montanhas que nunca chegaram a nascer. O reflexo zombava dele:


> “Você não é o Fogo Vivo. É só um sobrevivente. Um erro que não morreu no ovo.”


Mas CROM não respondeu com palavras. Vomitou fogo tão quente que seu próprio reflexo evaporou antes de atacar.

*Quebrou o encanto. Quebrou a tradição. Quebrou o medo.*


Ao sair do campo, os anciões disseram:


> “Você não seguiu o rito. Você destruiu o próprio rito.”


Ele respondeu:


> “Então escrevam um novo. Com meu nome.”


Quando alcançou sua juventude, CROM já era temido.  Duramte a *Guerra das Três Lamentações*, um conflito entre os clãs de Dragões de Gelo, de Relâmpago e de Areia.


CROM não escolheu um lado. Ele queimou todos.


Ele voou sobre os campos de guerra sozinho. Suas chamas não apenas destruíam exércitos — moldavam a terra. Montanhas ruíam, rios evaporavam, e a própria magia estremecia sob seu rugido.


O título se espalhou como um encantamento:

“Cuidado com o Fogo Vivo, pois sua ira consome até as ideias.”*


Foi ao fim dessa guerra que os Anciões o chamaram. E diante deles, no Círculo de Obsidiana, ele não se curvou. Ele rugiu. E os Anciões, pela primeira vez em milênios, se calaram.


Com o tempo, CROM deixou de guerrear. Percebeu que o mundo podia ser dominado de formas mais profundas do que pelo terror: pelo conhecimento. Assumiu o posto de *Guardião da Biblioteca Ígnea*, onde memórias do mundo eram gravadas com fogo vivo em placas indestrutíveis.


Ele estudou os segredos dos dragões que vieram antes dos dragões. Descobriu lendas sobre mundos paralelos, sobre a Chave da Realidade, e sobre um livro selado com promessas proibidas — *O Último Verso*.


Ele jamais soube por que guardava aquele livro. Mas ele o manteve próximo, mesmo quando a torre da Biblioteca desmoronou diante de uma fenda no céu.


E assim foi sugado pelo vazio entre mundos, até acordar em outro mundo, mais velho, mais cansado, mas ainda ardendo como se fosse o primeiro dia.

Como se *o Fogo ainda estivesse Vivo.*