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Khalid Morad

Al-Hakim

   Nascido sob o sol inclemente de Huzuz, no coração das terras de Zakhara, Khalid era o terceiro filho da linhagem Morad. Em sua casa, o sangue fervia com o poder bruto do Arcano; seus dois irmãos mais velhos manifestaram o dom da feitiçaria ainda na infância, moldando fogo e vento como se fossem extensões de seus corpos. Khalid, porém, era "vazio". Por anos, ele buscou em vão uma centelha de magia em suas veias, alimentando uma inveja silenciosa que o corroía enquanto via seus irmãos serem celebrados como os pilares da família.

   Em vez de se entregar ao amargor, Khalid canalizou sua frustração para a única ferramenta que possuía: a palavra. Ele aprendeu que, enquanto seus irmãos podiam destruir uma muralha com um raio, ele podia convencer o dono da muralha a abrir os portões. Sua lábia e aguçado sentido político o levaram rapidamente à corte do Sultão Qadir al-Zaman, um homem de temperamento volátil, mas que encontrou em Khalid o conselheiro perfeito. Em pouco tempo, o "irmão sem magia" tornou-se o homem mais influente da província, trazendo à família Morad um prestígio que o poder bruto jamais alcançaria sozinho.

   O destino de Khalid mudou quando o filho do Sultão, o arrogante Príncipe Omar, profanou um altar ancestral dedicado aos grandes poderes elementais. O ato enfureceu o Sheikh Idriss al-Zufar, um nobre e justo Djinn das altas esferas do Plano do Ar que agora se encontrava colérico com tamanha ofensa. Quando a tempestade de Idriss ameaçou engolir o palácio e transformar a cidade em pó, Khalid não recuou.

   Enquanto outros fugiam, Khalid caminhou até o centro do vendaval. Ele não usou magias para se proteger, mas sim a lógica, o respeito e a etiqueta diplomática dos planos. Ele argumentou que o erro de um filho tolo não deveria custar o sacrifício de súditos inocentes e propôs uma reparação que satisfizesse a honra ferida do Sheikh. Impressionado pela audácia do humano "comum" que falava com a autoridade de um rei, Idriss al-Zufar não apenas poupou a cidade, como viu em Khalid o receptáculo perfeito para seus interesses no plano material. O Djinn ofereceu-lhe Alanya, uma Gen de olhos cor de tempestade, para ser seus olhos e ouvidos, transformando Khalid em um Sha'ir. Finalmente, a magia que ele tanto invejou estava ao seu alcance — não como um dom de sangue, mas como um contrato de respeito.

   Com o passar dos anos, Khalid tornou-se uma lenda local, ganhando o título de Al-Hakim (O Sábio) por sua capacidade de mediar conflitos entre mortais e gênios. Foi então que Sheikh Idriss lhe revelou seu segredo mais amargo: séculos atrás, seu próprio filho, o Príncipe Malik, foi aprisionado em um receptáculo por um Sha'ir traidor. Com a morte do carcereiro, o objeto foi perdido. Para um nobre Djinn, admitir que um herdeiro foi capturado por um humano é uma mancha de "vergonha pessoal" insuportável. Idriss confiou a Khalid a missão de encontrar o cálice, que foi visto pela última vez sendo levado por mercadores em direção ao norte, passando de mão em mão até desaparecer no anonimato de masmorras distantes. O acordo é absoluto: se Khalid devolver o filho ao pai, o Sheikh concederá a ele um Desejo sem restrições.

   A busca pelo rastro do Príncipe Malik levou Khalid e Alanya a cruzar oceanos e desertos, deixando para trás o calor de Zakhara e as intrigas do sultão. Ele agora se encontra nas terras frias e estranhas de Neran. Aqui, os costumes são rudes e a magia é vista com outros olhos, mas Khalid sabe que, sob qualquer céu, a diplomacia e o poder dos elementos são moedas universais. Ele carrega consigo seus trajes de seda, sua bengala de madeira de sândalo e a constante presença de Alanya, movendo-se pelas sombras de Neran como um mediador.