O destino, ao que parece, tem um senso de humor cruel. Minha chegada às terras de Neran não foi marcada por tapetes estendidos ou aromas de especiarias, mas pelo estalar da madeira de carvalho e o gosto amargo da água salgada. Um evento de força descomunal, algo que as correntes marítimas comuns não poderiam explicar, partiu minha embarcação ao meio como se fosse um brinquedo de criança. No caos do naufrágio, enquanto marinheiros gritavam por deuses que não os ouviam, invoquei o poder dos planos. Em um piscar de olhos, o frio do oceano foi substituído pelo cheiro de terra úmida e o silêncio opressor de uma floresta desconhecida.
Minha precisão no teletransporte me salvou, mas me deixou vulnerável. Foi ali que encontrei Soliel. Em um território onde eu era o estrangeiro, minha língua foi minha armadura. Ofereci meus serviços e minha cortesia e, em troca, Soliel guiou-me para fora daquele labirinto verde, deixando-me às portas de uma cidade portuária, Vardholm, que cheirava a peixe e segredos.
Lá, conheci uma figura singular que se autodenominava "Es", o "ser mais benigno de todos". Uma alcunha pretensiosa para alguém que buscava apenas moedas em troca de informações. Decidi jogar o jogo dos gênios: em vez de ouro, ofereci-lhe um Desejo. Es, movido pela ganância e pela falta de cautela comum aos mortais, aceitou o pacto sem questionar o que eu pediria em troca. Ele me trouxe Gabriel, um homem atormentado por uma maldição que parecia o consumir.
Para um Sha'ir, o plano material é apenas uma ante-sala. Levei Gabriel comigo em uma viagem planar até as cortes de meu patrono, o Sheikh Idriss al-Zufar. O trato foi selado com a frieza de um contrato real: o Sheikh purificaria a alma de Gabriel, quebrando suas correntes sobrenaturais. Em troca, a vida de Gabriel agora pertence à minha busca. Ele é o preço pago pelo desejo de Es; o braço forte que Alanya não pode prover.
Gabriel, entretanto, não possui a paciência de um diplomata. Ao retornarmos ao plano material, sua gratidão foi ofuscada pela fúria de ter sido usado como moeda de troca. Ele não compreende que, nas terras de Al-Qadim, nada é dado sem um peso equivalente na balança.
Agora, caminho pelas ruas de Neran com um homem que me detesta, mas que está magicamente vinculado ao meu sucesso. Alanya flutua ao meu lado, zombando silenciosamente da situação. A busca pelo Príncipe Malik continua, e agora tenho um "aliado" cuja vida depende da minha palavra.
Que os ventos sejam favoráveis, pois a paciência de Gabriel certamente não será.