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Rowan

Druida 10

— É, garoto... olha só para esse tamanho. De quem são essas garras territoriais de quatro polegadas? São suas, né? É você o terror das matas, é sim.

Rowan dá uma risadinha, limpando o sangue de javali seco da sela improvisada enquanto o Fleshraker deita a cabeça pesada de réptil no colo dele, emitindo um som que parece um ronronar.

— Sabe, amigão... você me olha agora aqui tão tranquilo em meio as matas tão perigosas, mas se você me visse uns anos atrás, nem ia me reconhecer. O "macaco-pelado" aqui usava botas limpas, camisa de botões e trabalhava num navio imenso. Eu era navegador em um porto não muito longe daqui. Achava que o mundo era uma coisa segura, sabia de seus perigos é claro, mas existe uma grande diferença entre saber e viver o perigo... O pessoal da cidade se fecha naquelas paredes de pedra, a ilusão de controle e segurança que elas trazem é realmente reconfortante, não vou mentir, mas uma vez que você sabe o seu lugar na cadeia alimentar fica difícil se deixar enganar de novo.

Rowan começa a coçar a pele dura bem atrás da crista colorida do dinossauro, no ponto exato onde ele sabe que o bicho relaxa os olhos.

— Aí veio aquela tempestade absurda. O céu ficou irado, o mar engoliu o convés e o navio partiu como se fosse um graveto. Todo mundo morreu, garoto. Menos eu. O mar me cuspiu naquela praia da sua ilha. Cara, os primeiros meses foram um inferno! Eu não sabia caçar, não sabia me esconder... eu era só um pedaço de carne mole esperando para virar janta de algum primo seu. Eu tive que aprender a calar a boca, a pisar sem fazer barulho e a respeitar o vento. Se eu não ficasse esperto, ia virar adubo.

O dinossauro solta um sopro quente pelas narinas, piscando a membrana nictitante dos olhos, prestando atenção no tom de voz de Rowan.

— Mas a mágica de verdade aconteceu quando eu entrei no coração da selva e achei aquelas ruínas colossais. Você adora tirar um cochilo no pátio delas, né? Eu passei anos ali, sozinho, limpando cipó de altar antigo e decifrando os desenhos nas paredes daquele povo antigo. Eles sabiam das coisas, garoto. Eles não tentavam destruir a selva; eles se tornavam parte dela. Foi ali, lendo aquelas pedras e vendo vocês caçarem, que eu aprendi a escutar o que as plantas tem a dizer, aprendi que raios veem se você os chama e também que o fluxo natural da vida é o de mudar, se adaptar, se transformar...

Rowan sorri, lembrando do dia em que se conheceram.

— E aí, num belo dia, eu entro num templo desmoronado e encontro quem? Um filhote de Fleshraker enfezado, com a patinha presa nas pedras, tentando me morder com dentes do tamanho de alfinetes. Eu cuidei de você, a gente começou a caçar junto... e olha só para você agora. Um monstro lindo desse tamanho.

Ele dá uns tapinhas leves na lateral do pescoço escamoso do bicho.

— É realmente uma pena eu não poder te levar comigo nos momentos que preciso andar na cidade, uma criatura tão terrivelmente bela dessas precisa ser admirada, não temida. Deixa eles terem medo. Eles acham que a civilização deles é eterna, mas a gente sabe a verdade. A gente sabe o quão frágil esse mundo é. Agora limpa essa boca, que você tá sujo de sangue ainda. Vamos descansar, que amanhã a gente tem mais cantos para explorar e mais pontos de interesse para registrar. Não é, garoto? Quem é o dinossauro arqueólogo do papai? É você...