Eu não estava lá quando a explosão aconteceu. Só cheguei depois. O cheiro foi a primeira coisa que me atingiu: madeira queimada, pedra rachada e carne ferida. O local inteiro tinha destroços e sinais de destruição. Construções em ruínas. Um orfanato reduzido a cinzas. Pessoas andando sem rumo, cobertas de fuligem e choque. Eu não conhecia ninguém ali ainda. Eu sabioa que havia algo errado naquele fogo, não era comum, as marcas não eram naturais.
Foi assim que conheci os Lobos Prateados. Eles haviam perdido sua base. Muitos estavam queimados. Alguns mortos. Outros carregavam nos olhos algo pior que a dor: a culpa.
Eu poderia ter seguido viagem. Não tinha obrigação alguma ali, mas a Ordem dos Magos Chishiki Inari ensina: “A vida é o tempo de aprender". Neste caso aprender seria permanecer e por isso ofereci ajuda de imediato. Algo que estava além de mim de certa forma me atraía a eles.
Minha magia seria de grande valia principalmente para entender a causa da explosão. Com observação. Com estrutura. Avaliei os feridos, estudei os padrões das queimaduras, ajudei a organizar os sobreviventes. Como arquiteta, comecei a medir mentalmente o que havia restado. Como maga, tentei entender o que havia acontecido.
Foi assim que passei de observadora a aliada.
Não entrei para a guilda por contrato. Entrei porque o fogo havia deixado perguntas e eu não consigo ignorar perguntas.
Comecei a pensar em um projeto para a nova sede da guilda, mas por horar precisavamos curar os feridos e alguns deles necessitava de cuidados específicos. Grimwolf Fullbuster decidiu que iriamos a Porto Dourado. E fomos.
Porto Dourado era maior, mais estruturada, mais sólida que Green River. Mas cidades grandes apenas escondem melhor suas tensões. Na região dos templos vi primeiro a fortaleza de Hextor, símbolo de guerra, poder e dominação.
Perigo. E me alivei em saber dos meu recursos e da minha máscara que me deixava mais "camuflada" por assim dizer.
Um misto de medo e indiferença pois o fato daquele templo estar numa cidade contrastava com as possibilidades.
No templo de Pelor, enquanto o ritual era conduzido, observei com atenção. A magia divina não segue os mesmos caminhos que a arcana. Não há gestos estruturados como nos meus grimórios. Não há linhas visíveis de conjuração. Há fé. Eu tentei entender. Queria ver a trama por trás do ritual. Queria compreender como a energia divina se organiza, como responde ao chamado. Não consegui. Falhei. Mas um dia estudarei isso.
Quando Hakon saiu restaurado, Dario saiu sem cicatriz e Barrend Dankill com seu olho devolvido. Percebi algo importante. Nos faltava alguém assim. Alguém capaz de operar nessa camada da realidade. A magia arcana é precisa. A divina… é absoluta.
Afastei-me do grupo por um momento. Encontrei um dojo.
Não fui ali por nostalgia vazia. Fui por cálculo. Precisava entender caminhos de retorno. Possibilidades. Mapas. Ao sair, vi samurais em meditação. Não era oração. Eu sabia disso. Era disciplina. Respeitei.
Senti nostalgia, respeito e talvez culpa por estar longe. Mas também compreendi algo que já vinha crescendo dentro de mim: Talvez o que me mova já não seja apenas minha cultura. Em grande escala, faço a minha parte. Minhas ambições são minhas.
A ausência da minha espada sempre me lembra de como cheguei a Green River.
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No meio de uma das guerras civis em Kara-Tur, eu estava ao leste de T’u Lung, defendendo nossas fazendas de arroz e feijão preto contra um exército. Eles eram muitos. Mais fortes do que esperávamos.
Ao meu lado estava meu mestre.
Velho. Sem um braço. Sem uma perna. Sem um dos olhos. E ainda assim o mais forte entre nós. Ele era respeitado em toda Kara-Tur.
Do outro lado da batalha, uma figura se destacava. Um samurai robigoblin de vestes negras. Ele vinha em nossa direção.
Meu mestre pediu minha katana. Entreguei.
Ele disse apenas: “Tenha cuidado.”
Então, num piscar de olhos… Eu não estava mais lá. Teletransporte.
Ele fez isso? Outro fez?
Nunca soube.
Quando recobrei os sentidos, estava em uma selva. A guerra havia desaparecido. Avancei sem entender o que havia acontecido. De repente um goblin me atacou. Errou o ataque e acho que, o peso da prória espada aliado a força exercida do pequeno braço verde foi muito para desestabilizar o corpo do pequenino. Caiu. Ergui a mão e conjurei: “Que a força arcana se materialize e encontre seu alvo e finde sua miserável vida.” Mísseis mágicos cortaram o ar. Ele desfaleceu.
Segui adiante e então vi uma cidade: Green River.
Ali me estabeleci e só algum tempo depois conheci os Lobos Prateados.
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A notícia chegou como sempre chegam as notícias de guerra: abrupta e inevitável. O país natal de Grimwolf Fullbuster estava sendo atacado. Era o país de Neran.
Hakon foi direto: "Não é problema meu. Me arriscar numa guerra, que não é minha, não faz parte dos meus objetivos."
Eu compreendi e concordo que nem toda guerra nos pertence.
Grimwolf veio até mim. Não exigiu nada. Não evocou honra ou dever. Disse apenas que iria. E que eu não era obrigada a acompanhá-lo.
Mas acrescentou algo. Se fosse a minha guerra… Ele iria comigo.
E então me lembrei de uma promessa que ele fez: Ajudaria a procurar Mi-Suki. Minha prima.
Por isso não hesitei. Aceitei ir com ele.
Não por estratégia, cálculo ou dever com a Ordem dos Magos Chishiki Inari.
Mas porque ele era meu amigo. E naquele momento não senti dúvida mas sim determinação.
Se ele pisaria em guerra, eu pisaria ao lado dele.