1. Characters

Seo Yun

Maga

Jogador: Paulo Almeida

Personagem: Seo Yun (Female)

Nacional de: T’u Lung/Kara-Tur

Natural de: Balanzia

Classe: Mago

Conhecimento. A única coisa que conseguiu me separar da maior paixão da minha vida.

Minha família se viu separada na Guerra Civil de Shou Lung. Toda uma dinastia separada pela ignorância e pela fome de poder. Um homem que governa com unhas e dentes a favor da honra passar fomo em prol dos desejos de um imperador falido. Meu avô nos abandonou. Essa foi a escolha dele. Ele só não sabia que as pessoas não iriam desistir de seus lares e da vontade de ter suas próprias concepções de vida.

Sempre acompanhei meu pai em suas decisões e ele sempre respeitou as minhas, mesmo quando resolvi seguir o caminho do conhecimento arcano em prol da sabedoria. Como a relação entre meu pai e meus tios não ficou muito boa depois da guerra civil, eu acabei me isolando para aprender sobre a magia e seus desígnios.

Estudei magia no Castelo de Abura-age e acabei me filiando na Ordem dos Magos Chishiki Inari. Foram bons anos, conheci boas e más pessoas mas todas elas tinham algo a me ensinar. Eu aproveitei tudo. Única coisa que tenho a reclamar é a saudade que eu sentia da Mi-Suki, ela realmente faz muita falta pra mim. Ela está demorando voltar.

Decidi sair pelo mundo em busca de aprender mais e expandir meu conhecimento sobre tudo. Decidi que não vou deixar os problemas da minha família atrapalhar o meu destino e tão pouco o destino das coisas que eu amo. Um dia meu avô vai perceber o que está deixando passar e o que realemnte vale a pena defender.

Levo comigo a espada que ganhei do meu avô ainda pequena. É uma lembrança de quando ainda éramos família.


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Capítulo 1: Green River

Green River

"Green River. Um nome simples. Uma cidade simples."

Fui designada pela Ordem dos Magos Chishiki Inari a explorar a região onde ainda ecoavam os vestígios de guerras antigas: disputas entre escolhidos dos deuses, bruxas banidas e tragédias esquecidas. Meu destino era Green River, uma cidade pequena, cortada por um rio que lhe dá nome.

O lugar parecia cansado, como se tivesse sobrevivido tempo demais sem nunca ter tido tempo de florescer. As casas eram modestas, a economia claramente frágil, nem pobre o suficiente para gerar revolta, nem próspera o bastante para inspirar esperança.

Minha missão era clara: deveria me juntar a uma guilda local. Não por glória ou ouro, embora eu admita que pergaminhos e reagentes custem caro, mas porque esse era o caminho mais eficaz para acessar conhecimento prático. A Ordem me ensinou que saber sem agir é uma forma de egoísmo.

Foi então que conheci uma guilda marcada por uma tragédia recente: sua sede principal havia explodido, em um atentado sombrio que atingiu também o orfanato que ela mantinha. Não hesitei. A Guida era Lobos Prateados liderada pelo Senhor Grimwolf Fullbuster.

Como arquiteta e cartógrafa, senti que poderia oferecer mais do que feitiços. Me ofereci para ajudar a reconstruir a sede da guilda. Não por caridade, mas porque reconstruir algo do zero é uma das formas mais puras de aprender sobre ele.

Capítulo 2: Porto Dourado

Porto Dourado

Eu não estava lá quando a explosão aconteceu. Só cheguei depois. O cheiro foi a primeira coisa que me atingiu: madeira queimada, pedra rachada e carne ferida. O local inteiro tinha destroços e sinais de destruição. Construções em ruínas. Um orfanato reduzido a cinzas. Pessoas andando sem rumo, cobertas de fuligem e choque. Eu não conhecia ninguém ali ainda. Eu sabioa que havia algo errado naquele fogo, não era comum, as marcas não eram naturais. 

Foi assim que conheci os Lobos PrateadosEles haviam perdido sua base. Muitos estavam queimados. Alguns mortos. Outros carregavam nos olhos algo pior que a dor: a culpa. 

Eu poderia ter seguido viagem. Não tinha obrigação alguma ali, mas a Ordem dos Magos Chishiki Inari ensina: “A vida é o tempo de aprender". Neste caso aprender seria permanecer e por isso ofereci ajuda de imediato. Algo que estava além de mim de certa forma me atraía a eles. 

Minha magia seria de grande valia principalmente para entender a causa da explosão. Com observação. Com estrutura. Avaliei os feridos, estudei os padrões das queimaduras, ajudei a organizar os sobreviventes. Como arquiteta, comecei a medir mentalmente o que havia restado. Como maga, tentei entender o que havia acontecido.

Foi assim que passei de observadora a aliada.

Não entrei para a guilda por contrato. Entrei porque o fogo havia deixado perguntas e eu não consigo ignorar perguntas.

Comecei a pensar em um projeto para a nova sede da guilda, mas por horar precisavamos curar os feridos e alguns deles necessitava de cuidados específicos. Grimwolf  Fullbuster decidiu que iriamos a Porto Dourado. E fomos.

Porto Dourado era maior, mais estruturada, mais sólida que Green River. Mas cidades grandes apenas escondem melhor suas tensões. Na região dos templos vi primeiro a fortaleza de Hextor, símbolo de guerra, poder e dominação.

Perigo. E me alivei em saber dos meu recursos e da minha máscara que me deixava mais "camuflada" por assim dizer.

Um misto de medo e indiferença pois o fato daquele templo estar numa cidade contrastava com as possibilidades.

No templo de Pelor, enquanto o ritual era conduzido, observei com atenção. A magia divina não segue os mesmos caminhos que a arcana. Não há gestos estruturados como nos meus grimórios. Não há linhas visíveis de conjuração. Há fé. Eu tentei entender. Queria ver a trama por trás do ritual. Queria compreender como a energia divina se organiza, como responde ao chamado. Não consegui. Falhei. Mas um dia estudarei isso.

Quando Hakon saiu restaurado, Dario saiu sem cicatriz e Barrend Dankill com seu olho devolvido. Percebi algo importante. Nos faltava alguém assim. Alguém capaz de operar nessa camada da realidade. A magia arcana é precisa. A divina… é absoluta.

Afastei-me do grupo por um momento. Encontrei um dojo.

Não fui ali por nostalgia vazia. Fui por cálculo. Precisava entender caminhos de retorno. Possibilidades. Mapas. Ao sair, vi samurais em meditação. Não era oração. Eu sabia disso. Era disciplina. Respeitei.

Senti nostalgia, respeito e talvez culpa por estar longe. Mas também compreendi algo que já vinha crescendo dentro de mim: Talvez o que me mova já não seja apenas minha cultura. Em grande escala, faço a minha parte. Minhas ambições são minhas.

A ausência da minha espada sempre me lembra de como cheguei a Green River.

---

No meio de uma das guerras civis em Kara-Tur, eu estava ao leste de T’u Lung, defendendo nossas fazendas de arroz e feijão preto contra um exército. Eles eram muitos. Mais fortes do que esperávamos.

Ao meu lado estava meu mestre.

Velho. Sem um braço. Sem uma perna. Sem um dos olhos. E ainda assim o mais forte entre nós. Ele era respeitado em toda Kara-Tur.

Do outro lado da batalha, uma figura se destacava. Um samurai robigoblin de vestes negras. Ele vinha em nossa direção.

Meu mestre pediu minha katana. Entreguei.

Ele disse apenas: “Tenha cuidado.”

Então, num piscar de olhos… Eu não estava mais lá. Teletransporte.

Ele fez isso? Outro fez?

Nunca soube.

Quando recobrei os sentidos, estava em uma selva. A guerra havia desaparecido. Avancei sem entender o que havia acontecido. De repente um goblin me atacou. Errou o ataque e acho que, o peso da prória espada aliado a força exercida do pequeno braço verde foi muito para desestabilizar o corpo do pequenino. Caiu. Ergui a mão e conjurei: “Que a força arcana se materialize e encontre seu alvo e finde sua miserável vida.” Mísseis mágicos cortaram o ar. Ele desfaleceu. 

Segui adiante e então vi uma cidade: Green River.

Ali me estabeleci e só algum tempo depois conheci os Lobos Prateados.

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A notícia chegou como sempre chegam as notícias de guerra: abrupta e inevitável. O país natal de Grimwolf Fullbuster estava sendo atacado. Era o país de Neran. 

Hakon foi direto: "Não é problema meu. Me arriscar numa guerra, que não é minha, não faz parte dos meus objetivos." 

Eu compreendi e concordo que nem toda guerra nos pertence.

Grimwolf veio até mim. Não exigiu nada. Não evocou honra ou dever. Disse apenas que iria. E que eu não era obrigada a acompanhá-lo.

Mas acrescentou algo. Se fosse a minha guerra… Ele iria comigo.

E então me lembrei de uma promessa que ele fez: Ajudaria a procurar Mi-SukiMinha prima.

Por isso não hesitei. Aceitei ir com ele.

Não por estratégia, cálculo ou dever com a Ordem dos Magos Chishiki Inari.

Mas porque ele era meu amigo. E naquele momento não senti dúvida mas sim determinação.

Se ele pisaria em guerra, eu pisaria ao lado dele.

Capítulo 3: A Mansão e a Coluna de Fogo

Porto Dourado

Enquanto aguardávamos a chegada do navio para Neran, aceitamos trabalhos em Porto Dourado para pagar nossas passagens.


O primeiro deles nos levou até uma antiga mansão.

Assim que entrei no terreno senti excitação. Lugares antigos quase sempre guardam algo além de poeira e fantasmas: memória, magia… conhecimento.

O pomar chamou minha atenção imediatamente. As frutas possuíam propriedades curativas. Não naturais. Havia magia impregnada naquele lugar.

Seguimos até a região onde antigos membros da família haviam sido sepultados. Lá encontramos uma escadaria que descia profundamente.

Então ouvimos a voz: "Saiam agora deste lugar.".

Não obedeci imediatamente. Conjurei magia para tentar entender o que estava diante de nós. Ver Invisibilidade, Detectar Ilusão... Nada. Nenhuma resposta.

Então tentei algo que não imaginava que poderia me afetar tanto: Detectar Magia.

A presença que senti era tão intensa que meu corpo rejeitou aquilo. Vomitei. Nunca havia sentido algo daquela magnitude. Não consegui compreender o que estava lá embaixo.

Ainda assim, eu queria continuar. Mas sabia que recuar era a melhor decisão. A abordagem havia sido errada desde o início. Entramos como invasores num lugar que claramente possuía um guardião.

Partimos.


Aceitamos outro trabalho logo depois: uma manticora estaria atacando viajantes e fazendeiros numa floresta próxima.

Durante a viagem fiquei pensando na mansão. Na força daquela presença. Na incapacidade de compreendê-la. Quando finalmente encontramos a criatura, uma voz ecoou da casa próxima antes mesmo de nos aproximarmos. Pedia que não atacássemos a manticora. A justificativa era simples: Ela apenas se defendia daqueles que a caçavam por seus componentes.

Aceitei aquilo imediatamente.

Partes de uma manticora possuem enorme valor para nós magos. Eu mesma sabia disso. Mas criaturas inteligentes merecem ser ouvidas.

Foi então que percebi:

A aquela voz era diferente. Controlada. Distante. Precisa. Alguém capaz de nos observar daquela distância sem jamais se revelar não era um conjurador comum.

Dario não percebeu isso ou percebeu e ignorou. Após mais discussão, lançou, negligentemente, sua magia. Imprudência total.

A resposta veio instantaneamente. Uma coluna de fogo. Magia Selvagem, violenta e precisa.

O novo membro do grupo morreu imediatamente. Hit kill.

Não senti choque. Analisei. A eficiência daquela magia era assustadora.

Naquele momento tive certeza absoluta de que enfrentávamos alguém muito acima de nós.

Então Grimwolf Fullbuster fez algo que confirmou o que eu já suspeitava sobre ele.

Ofereceu-se para ficar em troca de nos salvássemos. Honra. Ele possuía algo raro naquele grupo: liderança verdadeira.

A entidade aceitou nos deixar partir em troca de uma espada encontrada anteriormente na mansão. Sobrevivemos.


Durante a noite fui roubada. Não percebi imediatamente. Acordei pouco depois, com a estranha sensação de ausência, aquele instante em que a mente reconhece uma perda antes mesmo dos olhos confirmarem. Meu grimório havia sumido.

Não era apenas um livro. Era minha vida arcana. Anos de estudo e magias escritas. Agora me restavam apenas as magias decoradas.

Viajar sem grimório transformava qualquer conjurador em uma sombra de si mesmo. Conseguimos avistar o ladrão: um imp. Um dos companheiros tentou persegui-lo comigo, mas foi inútil. A criatura desapareceu antes que conseguíssemos alcançá-la.

Dario estava na vigia naquela noite. Falhou. E pior do que a falha foi sua indiferença. Aquilo me irritou profundamente. Comecei a perceber algo sobre os Lobos Prateados.

Ainda eram aventureiros em aprendizado. Mas o maior problema não era força. Era união. Agiam como se competissem entre si, mesmo possuindo o mesmo objetivo.

Ainda assim… Eu aprendia. E sobrevivia.

Lembrei-me então de algo que ouvi de um antigo mestre:

“Viver é um eterno tempo de aprendizado.”



Capítulo 4: O Mar Entre a Vida e a Guerra

Retornamos para Porto Dourado para aguardar o dia da viagem até Neran.

Na noite anterior ao embarque, James chegou com o restante do grupo e alguns novos integrantes. Entre eles estava CastianNão gostei dele.

Havia algo em sua postura que me parecia perigoso. Um homem que se insinuava demais, observava demais e falava como alguém acostumado a esconder intenções atrás de palavras bem escolhidas.

Dos outros, um deles chamou atenção imediata do grupo inteiro: um clérigo servo de Tiamat.

Grimwolf recusou sua presença sem hesitar. Concordei. Não por fanatismo religioso mas por segurança. O grupo já possuía tensão suficiente.

A viagem começou tranquila. Então o mar resolveu mostrar que não estávamos preparados para ele.

Criaturas atacaram rapidamente. Empunhavam tridentes e moviam-se na água com velocidade absurda. Um ranger da própria embarcação identificou o que eram, mas naquele momento nomes pouco importavam.

Importava sobreviver. Sem meu grimório, minhas possibilidades eram limitadas. Passei a maior parte do combate protegendo a tripulação e tentando impedir que mais pessoas fossem arrastadas para o mar.

Então Grimwolf caiu, quando o vi, ele já havia saltado.. Castian tentou atacar e ajudar mas parecia tonto demais para fazer as coisas. Mais exibicionismo do que ação de fato.

Um tridente atravessou o peito de Grimwolf e o vi afundar nas águas escuras. Não senti desespero. Silênciei.

Quando seu corpo foi recuperado, permaneci ao lado dele o tempo inteiro. Limpei suas feridas. Preservei o corpo. Mantive tudo preparado. James tentava trazê-lo de volta.

E eu sabia que havia chance. Por isso não permiti que a morte o levasse completamente. Quando finalmente despertou, não demonstrei emoção exagerada. Apenas continuei trabalhando.

Dias depois vimos um navio que se deslocava com muita velocidade. A tripulação o reconheceu imediatamente: A Donzela dos Mares.

Naquele momento senti algo raro. Quase morte. Tentamos reagir. Eu mesma tentei compreender as proteções mágicas que envolviam o casco inimigo, mas não consegui. Havia ali uma estrutura arcana complexa demais para ser quebrada em pleno combate. Então percebi algo pior. Não estávamos sendo derrotados apenas por força. Aquilo era superioridade estratégica. Era como se tudo tivesse sido preparado para que perdêssemos. E perdemos. Nosso navio foi destruído. Fomos capturados. Acorrentados. Silenciados. Agora presos como escravos.

Durante os dias na cela permaneci em silêncio. Observando. Prestando atenção. Estudando os movimentos da tripulação, as rotas, os comportamentos. Houve momentos de tensão entre nós e os marinheiros, mas eu já começava a compreender algo importante: A guerra era muito maior do que imaginávamos. Nós ainda não entendíamos nem mesmo a superfície dela.

Foi então que aconteceu. Um servo de Enaruê surgiu, extremanete mal educado, diante das celas. Nossos grilhões foram desfeitos. Ele apontou para um círculo dourado que apareceu no chão do navio. Não vi como ele fez, não compreendi aquilo completamente. Talvez nunca compreenda. Os desígnios de um deus não seguem lógica arcana. Entramos no círculo. E fomos transportados para um templo em Niran.


Não poderia deixar de dizer que durante a viagem havia um bardo entre os passageiros. Ruivo. Por um breve momento, em meio ao mar, à tensão e à guerra que se aproximava, permiti-me esquecer o peso das coisas. Depois do ataque da Donzela dos Mares… Nunca mais o vi.

Capítulo 5: O Rubro, Hextor e a Criança

A guerra já havia deixado de fazer sentido para mim. Não porque eu não compreendesse conflitos. Eu cresci em Kara-Tur. Vi guerras civis. Vi exércitos marcharem. Vi pessoas morrerem por bandeiras, arrozais e promessas. Mas Neran era diferente.

Ali parecia que ninguém conseguia explicar claramente quem eram os inimigos. Cada soldado possuía uma história. Cada batalha possuía um motivo. E cada motivo contradizia o anterior, pelo menos pra mim.

Foi durante essa travessia que encontrei alguém que jamais esquecerei. Um mago dos Rubros. Me recordo sua gentileza. Contei-lhe sobre meu grimório perdido, sobre a jornada e sobre tudo o que havia acontecido desde Green RiverEle ouviu. E então me entregou: Roupas, componentes materiais e um grimório abençoado por Mystra.

Não um grimório comum. Um presente de valor imenso. Algo que poucos entregariam a uma estranha. Perguntei por quê. Ele respondeu que fazia aquilo porque desejava. Sem barganhas. Sem contratos. Sem segundas intenções. Apenas por vontade própria. Até hoje sinto que possuo uma dívida para com aquele homem.

Durante o encontro também conversamos sobre a história de Niran. Foi uma conversa breve. No momento em que dois dragões vermelhos cruzaram os céus acima de nós, ele mencionou antigos reis dragões que haviam dominado aquelas terras. Acreditei nele. Os dragões estavam ali voando acima de nossas cabeças. Era difícil não acreditar.


Mais tarde atravessamos um bosque. E imediatamente percebi que havia algo errado ou certo demais. A vegetação destoava completamente do restante da região. As árvores eram mais antigas. Mais vivas e belas. As cores pareciam exageradamente intensas. O verde era intenso o que destoava de tudo que vimos naquele país até alí.

Conjurei Detectar Magia. Uma aura difusa cobria tudo. Não havia uma fonte específica. Era a própria floresta. Aquilo me intrigou profundamente. Percebi nuances feéricas. Mas jamais imaginei até onde elas me levariam.


Mais tarde encontramos duas crianças fugindo da guerra. Um menino e uma menina. Eles estavam feridos e assustados. Ao ouvi-los, lembrei imediatamente do orfanato dos Lobos Prateados. A guerra sempre encontra as crianças primeiro. Mesmo quando elas não participam dela.


Quando Grimwolf decidiu seguir para a vila, eu lhe disse que permaneceria por perto. Não era exatamente mentira. Mas havia algo me incomodando. Uma sensação ou intuição talvez. Algo me puxava como uma lembrança que eu ainda não possuía. Como uma pergunta cuja resposta insistia em existir antes da própria pergunta.

Foi nesse momento que conheci Farad.

Não o conhecia. Jamais o havia visto. Mas desde o primeiro momento me pareceu educado. Confiável. Havia nele uma gentileza rara em tempos de guerra. Não era alguem tentando provar força. Nem um aventureiro tentando impressionar alguém. Era apenas alguém disposto a ajudar.

Expliquei que desejava investigar uma estranha sensação que vinha percebendo e ele poderia simplesmente ter recusado, cobrado ou poderia ter ido embora. Mas permaneceu. Talvez ele fosse mais curioso que eu. Talvez algo mais. Sinceramente eu não sei. Só sei que sua presença me transmitia uma sensação de acolhimento. E por isso seguimos juntos.

Foi Farad quem encontrou a entrada escondida próxima a uma árvore. Um alçapão bem discreto. Quase invisível. Mas eu sabia de alguma forma que aquilo era o que me chamava.

Ao abrir a passagem, um ar frio escapou das profundezas. Era uma sensação estranha. Parecida com a da mansão porem ainda mais intensa.

Farad observou a escuridão abaixo. Eu também. Nenhum de nós precisava dizer o óbvio. Aquilo não era um lugar seguro.

Ele sugeriu voltarmos por mais de uma vez. Mas eu pedi que viesse comigo. E ele aceitou.

Descemos.

Quanto mais avançávamos, mais evidente ficava que aquele lugar havia sido construído para permanecer escondido. Farad começou a encontrar armadilhas. Muitas delas. Algumas engenhosas. Outras brutais e certamente letais. Sem ele eu teria morrido antes de alcançar metade do caminho.

Eu observava seu trabalho enquanto avançávamos. Era habilidoso. Ele não possuía a arrogância comum entre aventureiros. Simplesmente fazia o que precisava ser feito. E fazia bem.


A descida parecia não ter fim. Foi então que encontramos as primeiras estátuas. Altas e robustas. Imponentes. A imagem de Hextor observava os corredores. Mesmo imóvel, o local parecia vivo. Como se estivéssemos sendo julgados a cada passo.

Eu não gostava daquele lugar. Mas também não conseguia abandoná-lo. O medo e a curiosidade caminhavam lado a lado. E, naquele momento, a curiosidade ainda estava vencendo.

Continuamos e depois de alguns minutos encontrarmos uma porta.

Não era uma porta comum. Possuía um mecanismo. Um enigma. Uma espécie de teste.

Observei. E então compreendi. A resposta surgiu diante de mim com uma clareza quase desconfortável. Como se eu já soubesse. Como se alguém estivesse apenas me lembrando.

A porta se abriu.

Do outro lado havia uma câmara escura. Mas não era a escuridão que chamou minha atenção. Era algo além dela. Um baú. Ainda hoje tenho dificuldade para descrever aquilo. Era belo, mas de uma forma errada. Como uma falha na realidade. Como se meus olhos não conseguissem decidir exatamente onde ele começava ou terminava. As bordas pareciam desfocadas. O contorno mudava constantemente.E mesmo assim era impossível desviar o olhar.

O chamado vinha dele o tempo todo. Era ele que me icomodava desde lá de fora, desde que me aproximei da vila.

Farad pareceu hesitar. Eu não. Aproximei-me. Estendi a mão. E disse:

— Vem a mim todo esse poder.

Toquei o baú. E ele se abriu.

Algo saiu de dentro. Cinco formas. Não eram chamas. Não eram luzes. Mas também eram as duas coisas. Como fogos-fátuos, azuis e escuros. Vivos.

Começaram a girar ao nosso redor. Silenciosos. Como se estivessem decidindo algo.

Então a primeira mergulhou em meu peito. Senti calor. Dor.

A segunda. A terceira. A quarta.

Eu sentia algo mudar, mas não sabia o quê. Era como perceber o início de uma transformação sem compreender seu resultado.

A quinta veio em minha direção. Por um instante tive certeza de que ela também entraria em mim. Mas não aconteceu. Ela desviou seguindo a minha vontade.

E foi para Farad.

Naquele momento compreendi apenas uma coisa. Meu destino acabara de mudar e, de alguma forma... o dele também.

Talvez eu tivesse escolhido aquilo. Talvez aquilo tivesse me escolhido. Não sei.

Mas Farad aceitou. E eu também.

O templo começou a tremer. E então ouvimos as vozes. Sussurros. Centenas deles. Talvez milhares. Algo nos observava.

E pela primeira vez desde que entrei naquele lugar... Tive medo de verdade.

O lugar começou a ruir. Primeiro foram pequenas vibrações. Depois pedras. Depois o chão. As vozes aumentavam a cada instante. Eu não conseguia compreender as palavras. Mas compreendia perfeitamente que precisávamos sair dali.

Corremos apenas seguindo o caminho de volta. Ou pelo menos aquilo que acreditávamos ser o caminho de volta.

As galerias pareciam diferentes. Mais longas. Mais escuras. Mais estreitas. Como se o próprio lugar tentasse impedir nossa fuga.

Farad seguia à frente. Eu logo atrás. Por diversas vezes escorregamos. Caímos. Nos levantamos. Voltamos a correr.

Eu sentia algo diferente dentro de mim. As essências. As cinco formas de poder. Ou melhor... As quatro que haviam entrado em mim. Aquilo ainda estava lá. Silencioso. Mas presente.

O medo continuava, mas agora havia outra sensação misturada a ele. Uma espécie de certeza. Como se uma porta tivesse sido aberta dentro de mim.

Depois de muito tempo correndo reconheci algo familiar. As enormes imagens de Hextor. Finalmente. Estávamos voltando pelo caminho correto.

Foi então que notei algo. Na base de uma das estátuas existia um pequeno orifício. Discreto. Perfeitamente circular. Pequeno demais para chamar atenção. Grande o suficiente para acomodar um dedo. Parei. Farad me chamou a continuar a fuga. Talvez tivesse razão. Mas minha curiosidade sempre foi maior do que meu bom senso.

Aproximei-me. Observei. E coloquei o dedo. Foi instantâneo. Uma dor tão intensa que meu corpo inteiro reagiu. Puxei a mão imediatamente. O sangue jorrou e o meu dedo não voltou comigo.

Por um instante fiquei sem compreender. Olhei para a mão. Olhei para a estátua. Olhei novamente para a mão.

Não houve tempo para lamentar. Não houve tempo para pensar. A estátua começou a despertar. A pedra se moveu lentamente, pesadamente. Como algo que dormia havia séculos. E então o medo venceu a curiosidade. Corremos. Não me lembro de quanto tempo levou. Talvez minutos. Talvez horas. Só me lembro da luz. A saída. O alçapão. O ar livre. Saímos. Caímos no chão. Feridos, cobertos de poeira e sangue. Exaustos. Sem meu dedo e com a mão sangrando. Mas estávamos vivos.

Foi então que avistei alguém ao longe. GrimwolfE nos braços dele... uma criança.

Por um instante tudo pareceu absurdo.

Eu acabara de fugir de um templo dedicado a Hextor. Ouvi vozes vindas da escuridão. Recebera um poder que não compreendia. Perdera um dedo. E agora observava uma vida recém-chegada ao mundo.

Uma criança. Nascida em plena guerra.

Aproximei-me. A mãe estava viva. Exausta, mas viva.

Recebi a criança nos braços e a voz do meu amigo Grimwolf: Cuide dela. Procure um local seguro.

A guerra destrói castelos. Exércitos. Reinos. Famílias.

Mas uma criança precisa apenas de uma coisa para morrer. Um único erro.

Olhei para aquele pequeno rosto. Depois para a mãe. Depois para o campo devastado ao nosso redor. E tomei uma decisão: Se existia um lugar seguro naquela região... eu o encontraria.