A guerra já havia deixado de fazer sentido para mim. Não porque eu não compreendesse conflitos. Eu cresci em Kara-Tur. Vi guerras civis. Vi exércitos marcharem. Vi pessoas morrerem por bandeiras, arrozais e promessas. Mas Neran era diferente.
Ali parecia que ninguém conseguia explicar claramente quem eram os inimigos. Cada soldado possuía uma história. Cada batalha possuía um motivo. E cada motivo contradizia o anterior, pelo menos pra mim.
Foi durante essa travessia que encontrei alguém que jamais esquecerei. Um mago dos Rubros. Me recordo sua gentileza. Contei-lhe sobre meu grimório perdido, sobre a jornada e sobre tudo o que havia acontecido desde Green River. Ele ouviu. E então me entregou: Roupas, componentes materiais e um grimório abençoado por Mystra.
Não um grimório comum. Um presente de valor imenso. Algo que poucos entregariam a uma estranha. Perguntei por quê. Ele respondeu que fazia aquilo porque desejava. Sem barganhas. Sem contratos. Sem segundas intenções. Apenas por vontade própria. Até hoje sinto que possuo uma dívida para com aquele homem.
Durante o encontro também conversamos sobre a história de Niran. Foi uma conversa breve. No momento em que dois dragões vermelhos cruzaram os céus acima de nós, ele mencionou antigos reis dragões que haviam dominado aquelas terras. Acreditei nele. Os dragões estavam ali voando acima de nossas cabeças. Era difícil não acreditar.
Mais tarde atravessamos um bosque. E imediatamente percebi que havia algo errado ou certo demais. A vegetação destoava completamente do restante da região. As árvores eram mais antigas. Mais vivas e belas. As cores pareciam exageradamente intensas. O verde era intenso o que destoava de tudo que vimos naquele país até alí.
Conjurei Detectar Magia. Uma aura difusa cobria tudo. Não havia uma fonte específica. Era a própria floresta. Aquilo me intrigou profundamente. Percebi nuances feéricas. Mas jamais imaginei até onde elas me levariam.
Mais tarde encontramos duas crianças fugindo da guerra. Um menino e uma menina. Eles estavam feridos e assustados. Ao ouvi-los, lembrei imediatamente do orfanato dos Lobos Prateados. A guerra sempre encontra as crianças primeiro. Mesmo quando elas não participam dela.
Quando Grimwolf decidiu seguir para a vila, eu lhe disse que permaneceria por perto. Não era exatamente mentira. Mas havia algo me incomodando. Uma sensação ou intuição talvez. Algo me puxava como uma lembrança que eu ainda não possuía. Como uma pergunta cuja resposta insistia em existir antes da própria pergunta.
Foi nesse momento que conheci Farad.
Não o conhecia. Jamais o havia visto. Mas desde o primeiro momento me pareceu educado. Confiável. Havia nele uma gentileza rara em tempos de guerra. Não era alguem tentando provar força. Nem um aventureiro tentando impressionar alguém. Era apenas alguém disposto a ajudar.
Expliquei que desejava investigar uma estranha sensação que vinha percebendo e ele poderia simplesmente ter recusado, cobrado ou poderia ter ido embora. Mas permaneceu. Talvez ele fosse mais curioso que eu. Talvez algo mais. Sinceramente eu não sei. Só sei que sua presença me transmitia uma sensação de acolhimento. E por isso seguimos juntos.
Foi Farad quem encontrou a entrada escondida próxima a uma árvore. Um alçapão bem discreto. Quase invisível. Mas eu sabia de alguma forma que aquilo era o que me chamava.
Ao abrir a passagem, um ar frio escapou das profundezas. Era uma sensação estranha. Parecida com a da mansão porem ainda mais intensa.
Farad observou a escuridão abaixo. Eu também. Nenhum de nós precisava dizer o óbvio. Aquilo não era um lugar seguro.
Ele sugeriu voltarmos por mais de uma vez. Mas eu pedi que viesse comigo. E ele aceitou.
Descemos.
Quanto mais avançávamos, mais evidente ficava que aquele lugar havia sido construído para permanecer escondido. Farad começou a encontrar armadilhas. Muitas delas. Algumas engenhosas. Outras brutais e certamente letais. Sem ele eu teria morrido antes de alcançar metade do caminho.
Eu observava seu trabalho enquanto avançávamos. Era habilidoso. Ele não possuía a arrogância comum entre aventureiros. Simplesmente fazia o que precisava ser feito. E fazia bem.
A descida parecia não ter fim. Foi então que encontramos as primeiras estátuas. Altas e robustas. Imponentes. A imagem de Hextor observava os corredores. Mesmo imóvel, o local parecia vivo. Como se estivéssemos sendo julgados a cada passo.
Eu não gostava daquele lugar. Mas também não conseguia abandoná-lo. O medo e a curiosidade caminhavam lado a lado. E, naquele momento, a curiosidade ainda estava vencendo.
Continuamos e depois de alguns minutos encontrarmos uma porta.
Não era uma porta comum. Possuía um mecanismo. Um enigma. Uma espécie de teste.
Observei. E então compreendi. A resposta surgiu diante de mim com uma clareza quase desconfortável. Como se eu já soubesse. Como se alguém estivesse apenas me lembrando.
A porta se abriu.
Do outro lado havia uma câmara escura. Mas não era a escuridão que chamou minha atenção. Era algo além dela. Um baú. Ainda hoje tenho dificuldade para descrever aquilo. Era belo, mas de uma forma errada. Como uma falha na realidade. Como se meus olhos não conseguissem decidir exatamente onde ele começava ou terminava. As bordas pareciam desfocadas. O contorno mudava constantemente.E mesmo assim era impossível desviar o olhar.
O chamado vinha dele o tempo todo. Era ele que me icomodava desde lá de fora, desde que me aproximei da vila.
Farad pareceu hesitar. Eu não. Aproximei-me. Estendi a mão. E disse:
— Vem a mim todo esse poder.
Toquei o baú. E ele se abriu.
Algo saiu de dentro. Cinco formas. Não eram chamas. Não eram luzes. Mas também eram as duas coisas. Como fogos-fátuos, azuis e escuros. Vivos.
Começaram a girar ao nosso redor. Silenciosos. Como se estivessem decidindo algo.
Então a primeira mergulhou em meu peito. Senti calor. Dor.
A segunda. A terceira. A quarta.
Eu sentia algo mudar, mas não sabia o quê. Era como perceber o início de uma transformação sem compreender seu resultado.
A quinta veio em minha direção. Por um instante tive certeza de que ela também entraria em mim. Mas não aconteceu. Ela desviou seguindo a minha vontade.
E foi para Farad.
Naquele momento compreendi apenas uma coisa. Meu destino acabara de mudar e, de alguma forma... o dele também.
Talvez eu tivesse escolhido aquilo. Talvez aquilo tivesse me escolhido. Não sei.
Mas Farad aceitou. E eu também.
O templo começou a tremer. E então ouvimos as vozes. Sussurros. Centenas deles. Talvez milhares. Algo nos observava.
E pela primeira vez desde que entrei naquele lugar... Tive medo de verdade.
O lugar começou a ruir. Primeiro foram pequenas vibrações. Depois pedras. Depois o chão. As vozes aumentavam a cada instante. Eu não conseguia compreender as palavras. Mas compreendia perfeitamente que precisávamos sair dali.
Corremos apenas seguindo o caminho de volta. Ou pelo menos aquilo que acreditávamos ser o caminho de volta.
As galerias pareciam diferentes. Mais longas. Mais escuras. Mais estreitas. Como se o próprio lugar tentasse impedir nossa fuga.
Farad seguia à frente. Eu logo atrás. Por diversas vezes escorregamos. Caímos. Nos levantamos. Voltamos a correr.
Eu sentia algo diferente dentro de mim. As essências. As cinco formas de poder. Ou melhor... As quatro que haviam entrado em mim. Aquilo ainda estava lá. Silencioso. Mas presente.
O medo continuava, mas agora havia outra sensação misturada a ele. Uma espécie de certeza. Como se uma porta tivesse sido aberta dentro de mim.
Depois de muito tempo correndo reconheci algo familiar. As enormes imagens de Hextor. Finalmente. Estávamos voltando pelo caminho correto.
Foi então que notei algo. Na base de uma das estátuas existia um pequeno orifício. Discreto. Perfeitamente circular. Pequeno demais para chamar atenção. Grande o suficiente para acomodar um dedo. Parei. Farad me chamou a continuar a fuga. Talvez tivesse razão. Mas minha curiosidade sempre foi maior do que meu bom senso.
Aproximei-me. Observei. E coloquei o dedo. Foi instantâneo. Uma dor tão intensa que meu corpo inteiro reagiu. Puxei a mão imediatamente. O sangue jorrou e o meu dedo não voltou comigo.
Por um instante fiquei sem compreender. Olhei para a mão. Olhei para a estátua. Olhei novamente para a mão.
Não houve tempo para lamentar. Não houve tempo para pensar. A estátua começou a despertar. A pedra se moveu lentamente, pesadamente. Como algo que dormia havia séculos. E então o medo venceu a curiosidade. Corremos. Não me lembro de quanto tempo levou. Talvez minutos. Talvez horas. Só me lembro da luz. A saída. O alçapão. O ar livre. Saímos. Caímos no chão. Feridos, cobertos de poeira e sangue. Exaustos. Sem meu dedo e com a mão sangrando. Mas estávamos vivos.
Foi então que avistei alguém ao longe. Grimwolf. E nos braços dele... uma criança.
Por um instante tudo pareceu absurdo.
Eu acabara de fugir de um templo dedicado a Hextor. Ouvi vozes vindas da escuridão. Recebera um poder que não compreendia. Perdera um dedo. E agora observava uma vida recém-chegada ao mundo.
Uma criança. Nascida em plena guerra.
Aproximei-me. A mãe estava viva. Exausta, mas viva.
Recebi a criança nos braços e a voz do meu amigo Grimwolf: Cuide dela. Procure um local seguro.
A guerra destrói castelos. Exércitos. Reinos. Famílias.
Mas uma criança precisa apenas de uma coisa para morrer. Um único erro.
Olhei para aquele pequeno rosto. Depois para a mãe. Depois para o campo devastado ao nosso redor. E tomei uma decisão: Se existia um lugar seguro naquela região... eu o encontraria.